• Regina Mota

Tatibitatês, Ruy Castro

Diante do tatibitatês com que as pessoas gostam de se expressar pela internet -outro dia recebi intrigante mensagem de uma amiga: "Pq vc tb ñ vai la em ksa nesse fds comer krambola?"-, concluo que sempre haverá quem ache que a língua portuguesa tem pala vras demais e, estas, mais letras do que precisam. Daí que as submetam a dolorosas cirurgias, como supressão de vogais, fusão de consoantes e aglutinação de sílabas. E isso não é de hoje.

Em 1965, por exemplo, tivemos "Borandá". Era o título de uma canção de Edu Lobo -um de muitos apelos à marcha do nordestino para fugir da fome, rumo à sua inevitável redenção. A expressão já era uma simplificação de "vam' borandá", que, evidente, vinha de "vamos embora andar". Por uns tempos, até pegou. Os meninos do Rio diziam "borandá" depois de uma farta rodada de milk-shakes e sanduíches de salada de ovo no Bob's.

Dois anos depois, Wilson Simonal reduziu "vamos embora" ao gaiato "s'imbora", sendo o "s" o único sobrevivente do "vamos". Em 1969, o mesmo Simona (epa!) levaria aos píncaros esse português fraturado ao reduzir o título e uma estrofe inteira de "País Tropical", de Jorge Ben, a "patropi" -palavra que se consagrou como uma definição marota do Brasil e já devia estar no dicionário.

Na mesma época, o jovem "Pasquim" lançou uma série de abreviações que se incorporaram à língua falada, como "paca", "mifo", "sifo" e "nusfo", todas de óbvio significado. E a última manifestação nacional dessa rearrumação micro de uma frase inteira foi a velha e deliciosa expressão baiana "Ó paí, ó" -ou "Olhe pra isso aí, olhe"-, que deu título a um recente filme nacional e que um locutor de TV leu, à inglesa, sabe-se lá por quê, "ôu pêi ôu".

Quanto à mensagem que minha amiga me mandou, entendi tudo, menos "krambola".

Folha de S.Paulo, 8 de abril de 2012.


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