• Regina Mota

‘O Dilema das Redes' Quem assiste ao documentário dificilmente fica indiferente

Um dos assuntos mais falados da semana passada é o documentário “O Dilema das Redes”, lançado pelo Netflix. A obra tocou um nervo. Quem assiste dificilmente fica indiferente. Alguns saem indignados com as empresas de tecnologia, outros, revoltados com o próprio documentário.

Uma das críticas que o documentário recebeu é justamente passar a mensagem de que os problemas criados pelo Vale do Silício só podem ser resolvidos por gente do próprio Vale do Silício. Todos os entrevistados estão intimamente ligados a ele. Essa posição ignora o fato de que a internet se fragmentou há tempos e tornou-se objeto da disputa geopolítica mais importante dos nossos tempos.

As recomendações ingênuas que o documentário faz de “desligar as notificações do celular” ou “deixá-lo carregando fora do quarto” soam ridículas perto do terremoto que a rede está atravessando.

A questão da internet e seu uso é hoje estrutural. Os lances da disputa global têm muito mais impacto sobre a vida das pessoas conectadas do que qualquer tentativa de mudança de hábitos no plano pessoal.

Outra simplificação imperdoável é pegar uma família de classe média americana como exemplo de uso da rede.

A internet não é feita de pessoas como aquelas, que são minoria. É feita de pessoas que lutam para se conectar e para quem a conectividade é um recurso escasso.

É só olhar a situação do Brasil, onde 70 milhões de pessoas estão desconectadas ou mal conectadas à rede. Para muitas dessas pessoas, a pouca conexão que têm é questão de sobrevivência.

O documentário também não enfrenta as raízes que levaram a internet a se tornar o que é hoje. Essa raiz é a dominância completa dos aspectos comerciais sobre a rede.

Olhando a história da internet, sua utopia foi justamente construir uma infraestrutura de comunicação autônoma com relação ao capitalismo, ainda que inserida nele.

Nesse sentido, a internet surgiu como um espaço multissetorial, em que setores como a academia, a comunidade científica, o terceiro setor e outros setores estariam em pé de igualdade com o setor privado.

Não por acaso os endereços da rede receberam terminações como .org, .edu, .net e assim por diante. Só que a utopia não durou. O setor privado ganhou a primazia da rede. O .com triunfou.

Esse destino não era inevitável. A rede já viveu ciclos de utopia e distopia. Antes da primeira bolha da internet, a rede ainda utópica caminhava rapidamente para a comercialização sem limites.

Há um artigo de Hermano Vianna publicado nesta Folha, em 1999, em que o antropólogo reclamava que a internet estava virando um shopping center! (“Internet ou o atoleiro virtual de porcarias”).

Com o estouro da bolha, no início dos anos 2000, essa parte comercial exacerbada da rede implodiu. Isso abriu espaço para outra era utópica da rede, com o surgimento dos blogs e da Wikipedia.

No entanto, a comercialização da rede voltou de forma mais severa. Matou os blogs e fez surgir muitos dos problemas que o documentário descreve.

O que fazer para retomar os usos não comerciais da rede? Esperar por outra bolha? Deixar o celular carregando fora do quarto?

Reader

Já era Brasil sem uma lei de privacidade

Já é entrada em vigência da Lei Geral de Proteção de Dados

Já vem aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados para o processo eleitoral

Ronaldo Lemos

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Folha de S.Paulo, 28 de setembro de 2020.


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