• Regina Mota

Geração que só sabe falar, Djamila Ribeiro

Pessoas mimadas não respeitam quem veio antes em tempos de debates rasos


É a morte do pensamento crítico, do respeito e da falta de humildade para ouvir uns puxões de orelha

No final da minha adolescência, eu trabalhei em uma organização chamada Casa de Cultura da Mulher Negra de Santos, lugar que me ensinou muito.

Lembro que, em 2002, a Casa organizou um seminário sobre a Conferência de Durban, que aconteceu em 2001 nesta cidade sul-africana. Trabalhei na construção do evento e lembro a minha excitação, pois teria a oportunidade de ouvir a relatora geral da conferência, a psicóloga e referência no debate racial, doutora Edna Roland, o doutor Hélio Santos, um grande nome do movimento negro e fundador do Instituto Brasileiro da Diversidade, entre outros.

Eu tinha 22 anos e toda expectativa do mundo. No dia, após ajudar nos detalhes finais, pude sentar na primeira fila para acompanhar. Fui anotando tudo, escutando, até que chegou o momento das perguntas. Um rapaz da minha idade, namorado de uma amiga, se levantou para fazer uma pergunta a Hélio Santos. Ele se demorou, ficou falando da própria vida para defender meritocracia e, ao final, fez uma fala contra as cotas raciais.

Santos ouviu a tudo atentamente e iniciou a resposta falando da complexidade da questão racial, de como a estrutura racista funcionava refutando a visão do rapaz com excelentes argumentos.

Enquanto respondia, o rapaz o interrompeu, querendo contra-argumentar. Ao que Santos disse: “Mesmo discordando do que você falava, eu ouvi o que você tinha a dizer, então agora é sua vez de escutar”. E prosseguiu com sua resposta. À época, eu senti um pouco de vergonha pelo rapaz, mas aprendi uma lição importante.

Anos depois, já no mestrado, eu tive a oportunidade de encontrar a grande intelectual que foi ministra da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), a doutora Luiza Bairros. Era um evento promovido pela ONU e meu coração estava em festa em saber que eu teria a oportunidade de ouvir uma grande ativista, responsável pela formulação de políticas públicas importantes para a população negra.

Ao final do evento, encontrei-a na sala do café e conversamos. Eu me apresentei. Para minha alegria e surpresa, ela já havia ouvido falar de mim e tive uma das conversas mais prazerosas da vida. Meses depois, novamente nos encontramos no 1º Seminário Internacional Cultura da Violência Contra as Mulheres, organizado pelo Instituto Patrícia Galvão e Vladimir Herzog. Eu fui mestre de cerimônias do evento e ela seria uma das palestrantes principais.

Como foi um evento de dois dias, na primeira noite houve um jantar de recepção para as convidadas. Eu fui sem conhecer muitas pessoas, fiquei um pouco deslocada até encontrar pessoas conhecidas. Num dado momento, Bairros foi até a mesa onde eu estava e me convidou para pegar a van que nos levaria de volta ao hotel. Fomos conversando e eu contei das dificuldades do mestrado, as resistências da academia ao pensamento feminista negro. Ela ouviu tudo atentamente.

No dia seguinte, nos bastidores do evento, ela me chamou e, entre tantas coisas, me disse: “Djamila, a minha geração lutou muito para que a sua estudasse. Você está estudando em uma universidade pública e precisa entender a importância disso. A sua geração tem que ser a ‘geração engole o choro e vai’”. Fiquei absorta naquelas palavras e decidi que era hora de entregar a dissertação, uma vez que eu havia pedido para estender o prazo da minha bolsa Fapesp — o que foi aceito, porém sem benefício financeiro.

Processei as dores da qualificação em que sofri racismo de uma professora da banca e entreguei. Após a minha defesa, aí chorei todo o choro represado. Tempos depois, tomei uma bronca da grande Sueli Carneiro porque estava dando atenção demais a ataques que eu sofria nas redes sociais. Ela me disse para focar o que importava e que veria caso eu seguisse respondendo a haters. Eu agradeço aos puxões de orelha que tomei.

Por que eu digo tudo isso? Porque em tempos de debates rasos e odiosos nas redes sociais, a gente percebe uma galera mimada, que não respeita quem veio antes ou adere a um anti-intelectualismo absurdo que não passa das três linhas de Twitter.

Pessoas que não limpam os pés e pedem licença antes de entrar na casa dos outros; acreditam que um post de Instagram dá conta de responder a tudo. Pessoas com 20, 30 anos, e com todas as certezas do mundo, não escutam, agridem, se ofendem se é dito que precisam estudar. Que, sem ler ou conhecer os conceitos mobilizados para a escrita de um livro, julgam que dizer “esse livro é uma bosta” é crítica. Ou que xingar a pessoa de “chata, boba e feia” é argumento. Maldita doxa, diriam os gregos. É a morte do pensamento crítico, do respeito e a falta de humildade para ouvir uns puxões de orelha. “Quem não pode atacar o argumento ataca o argumentador.” Paul Valèry estava certo antes de saber que existiria o Twitter.


Djamila Ribeiro - Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais. Folha de S.Paulo, 5 de fev. 2021

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