• Regina Mota

Editorial da Folha de S.Paulo: "A regra é complicar"

Ficou célebre a frase do poeta Ferreira Gullar: "A crase não foi feita para humilhar ninguém". Com mais razão seria possível acrescentar que ninguém estará ameaçado de cadeia ou multa se desobedecer às regras do novo acordo ortográfico, adotado no Brasil a partir de 2009.

Chega a ser notável, aliás, a diligência com que tantos brasileiros trataram de se adaptar às modificações impostas. Manuais explicativos, dicionários atualizados, edições refeitas de antigos livros se produziram em quantidade e --no que sem dúvida consistiu em forte motivo para todo o desassossego-- se venderam com rapidez.

Eis que a presidente Dilma Rousseff aceitou adiar, para janeiro de 2016, a plena vigência desse acordo, que muitos acreditavam, ingenuamente, já imperante no papel e na tinta.

A origem do problema --como não poderia deixar de ser em questões de correção vernacular-- está em Portugal. Lá se previu um período mais longo de transição para as novas normas, o que é justo, pois é maior o impacto das mudanças na grafia lusitana.

Enquanto isso, o Brasil se complica. O tempo a transcorrer até que se adotem, formalmente, as regras que já se adotaram no cotidiano serve para inspirar o Senado a rediscutir o tema.

Reforme-se a reforma, mude-se a mudança: é o que propõem, por exemplo, o senador Cyro Miranda (PSDB-GO) e a senadora Ana Amélia (PP-RS). Argumentam, ao lado dos inevitáveis gramáticos dissidentes, que muita coisa não faz sentido ou é complicada demais no acordo ortográfico.

Sem dúvida, há aspectos irritantes e enigmáticos no novo sistema. Nenhum tão nocivo, talvez, quanto a abolição do acento diferencial que tornou a preposição "para" indistinguível do verbo "parar" na terceira pessoa do singular.

Paciência. Abrir de novo a discussão --verdadeira caixa de Pandora das preocupações puristas e das ociosidades diplomáticas-- traria mais uma rodada de reedições de livros, em especial os destinados ao público escolar.

Excetuada essa área de interesse, que mobiliza recursos de vulto nas compras governamentais, qualquer alteração no que já se decidiu traria apenas mais descrédito. Quem sabe seja esse o objetivo inconsciente de todo o quiproquó.

O acordo ortográfico, surpreendentemente, fugiu à regra das famosas "leis que não pegam" no Brasil. Não que todos conheçam suas imposições, mas houve empenho em saber que existiam. Mais uma reforma, entretanto, e ninguém saberá escrever mais nada.


Folha de S.Paulo, 1º de janeiro de 2013.

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