• Regina Mota

Contadores de caso, Anna Veronica Mautner


Ter um repertório em comum elimina a sensação de isolamento e faz a gente se sentir "em casa" no mundo.


Já vai longe o tempo da comunidade de vizinhança, quando se conversava, contando caso. Aí veio o telefone, e podíamos contar caso pelo muro e pelo aparelho.


As histórias tinham se- quência, e o "nada de novo" era quase má notícia.

A educação das crianças, para que façam parte do mundo, se dá por meio dos casos que elas ouvem.


Muitas coisas elas não entendem ainda, mas, com o tempo, o repertório delas cresce e se iguala ao do mundo a que pertencem.


Por meio de fábulas, contos de fadas e superstições, elas vão tomando conhecimento do que é certo, do que é errado, do que é raro e do que é familiar.


Sempre entendi que a criança gosta de ouvir "n" vezes a mesma história e exige que seja contada do mesmo jeito, para ter a alegria de chegar a um fim conhecido. Mais um ponto em seu repertório de cidadã do mundo.


Gente grande também precisa ter meios de atualização do repertório. O problema é que o mundo dos adultos muda muito rápido.


Vivemos sob uma avalanche de notícias. Assistimos a eventos que ocorrem a cem metros ou a milhares de quilômetros, em tempo real.


O repertório de que dispomos, mesmo os mais informados e bem formados, não nos habilita a elaborar de imediato tantos fatos.


Comentaristas e jornalistas especializados assumem nossa orientação. Mas existe um jornalista especial que não trata obrigatoriamente de grandes eventos.


É quase um contador de caso, só que não inventa caso. É o cronista. Ele tem um estilo pessoal de contar aquilo que o leitor também sabe. Mas, quando lido da parte de um contador de caso, vira repertório.


Ler uma crônica é um retorno ao muro onde se contavam os casos para os vizinhos. É um bisbilhotar em jornal ou revista.


Os meios de comunicação têm dia e lugar certos para apresentar seus cronistas, como um ponto de encontro.


Eu quero ver o que o fulano diz na quarta-feira, na página tal. Eu vou ao encontro dele, para saber o que lhe chamou a atenção durante a semana.


O cronista é uma primeira pessoa do singular, que observa como envolvida, não como distante.


Ele pretende ser lido como se estivesse sendo escutado.


Por isso, conte histórias, conte casos e não jogue prosa fora. Mande para seu próximo.

Folha de S. Paulo, 24 de maio de 2011. Caderno Equilíbrio

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A leitura faz a gente girar diferente pelo mundo.