• Regina Mota

Autocuidado, Djamila Ribeiro

Cuidar de si não é egoísmo ou algo exclusivo, mas autopreservação.

Tem crescido a visibilidade de terapeutas holísticas, sobretudo negras


Mulheres da minha família acreditavam que não podiam cuidar delas mesmas. A grande maioria nem sequer teve tempo de pensar sobre isso – as imposições da vida preencheram a maior parte das existências delas –, mas minha avó, benzedeira, sempre tirava um tempo, depois de aposentada, para fazer algo por ela, fosse ir até Águas de São Pedro para tomar águas curativas ou visitas à Basílica de Nossa Senhora da Aparecida. Mas foram raras as vezes em que ela pôde ser cuidada.

Quando Audre Lorde fala de autocuidado, não está reduzindo isso a fazer tratamento de pele ou tão somente tirar um dia pra si, mas de um conjunto de ações que deveriam estar à disposição das mulheres para que elas pudessem minimamente ter escolhas. Imagina ter uma vida tão atribulada que não sobra tempo para pensar em mais nada além da própria sobrevivência?

Essa é a realidade da maioria da população oprimida pelas desigualdades. Porém, como disse Lorde, "cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é uma autopreservação, e isso é um ato de guerra política".

Por isso é tão importante lembrar das redes de apoio a mulheres, de tantos projetos voltados ao cuidado daquelas que cuidam. Fiquei feliz quando vi um projeto que oferece aulas de ioga para mulheres periféricas, possibilitando que elas acessem técnicas que promovam o bem-estar físico e mental.

Nos últimos anos, tem crescido a visibilidade de terapeutas holísticas, sobretudo negras, que oferecem suas técnicas a preços acessíveis, entendendo a necessidade de alcançar as mulheres mais empobrecidas.

Em uma sociedade capitalista, racista e sexista há a apropriação de tecnologias ancestrais que se tornam exclusivas de uma classe mais abastada.

Massagens terapêuticas, por exemplo, viram propriedades de pessoas ricas ou uma espécie de estilo de vida para determinadas classes. O que faz com que muitas mulheres pensem que essas coisas não são para elas ou que são frescura, quando, na verdade, são modos de cura.

Porém, com essa propagação da ideia de autocuidado como algo tão somente individual e descolado da discussão sobre estruturas de poder, o acesso a determinadas práticas fica limitado, como se fosse um luxo somente para quem pode pagar. Ou, ainda, visto como algo novo, uma moda, quando muitas dessas técnicas são milenares e nasceram populares antes do processo de apropriação.

Muitas clínicas oferecem terapias que minha bisavó fazia, porém cobrando valores exorbitantes. Sempre digo que seria importante existir um programa nacional chamado "Massagem é cura, não é frescura" para ser oferecido a mulheres como minha avó e minha mãe.

Há um pouco mais de um mês, eu fiz curso de reiki nível 1, ministrado por Daniela Alves — dessas terapeutas que fazem um trabalho acessível para mulheres negras. Foi algo marcante para mim, pude encontrar nessa técnica mais uma forma de cuidar de mim nesse momento difícil pelo qual o país passa.

Ao divulgar o trabalho de Daniela em uma rede social, o que fez com que muitas mulheres também procurassem essa técnica de autocuidado, fui surpreendida por seguidores desavisados que, por ignorância ou preconceito, fizeram comentários ofensivos, desconhecendo que essa prática faz parte de uma política do SUS.

Por meio da Portaria 145/2017, o Ministério da Saúde aumentou as opções de tratamentos complementares oferecidos pelo Sistema Único de Saúde, fazendo com que a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares considerasse 19 terapias integrativas como ações de promoção e prevenção em saúde. Entre essas práticas, o reiki, a ioga, arteterapia, meditação, aromaterapia, cromoterapia, entre outras.

Esse reconhecimento é importante e quebra uma série de resistências em relação a essas terapias, que podem ser ofertadas para as pessoas de variadas classes. Porém, boa parte da população desconhece essa política e, infelizmente, em momento de desmonte do SUS, ela acaba não alcançando as pessoas como deveria.

A reflexologia, por exemplo, que é uma técnica milenar, deveria estar acessível por promover o equilíbrio emocional e físico. Nesse sentido, gostaria de citar o trabalho da terapeuta Jade Galdino que, ao cobrar preços acessíveis, acolhe aquelas que precisam de tantos cuidados.

Para falarmos em autocuidado de forma mais abrangente, precisamos que se amplie o acesso a determinadas práticas e que se valorize o trabalho daquelas que nos mostram que cuidar de si não é egoísmo ou coisa de clubes exclusivos: é autopreservação para lidar com um mundo que nos sobrecarrega; é promover a cura e o equilíbrio para aquelas que sempre cuidaram do mundo.


*Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.


Folha de S.Paulo, 25 de junho de 2021. Acesso em 4/7/21

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