• Regina Mota

A democracia TIKTOK

Luiz Felipe Pondé

Acho especialmente fofa a ideia de que todos nós sejamos agentes criativos

Façamos hoje um exercício de futurologia próxima, prática bem na moda na ciência de ocasião que se espalhou na pandemia. Aviso aos navegantes que se agora uso como pedra de toque o aplicativo chinês TikTok é porque ele é o da hora no debate sobre apps em redes sociais, mas meu exercício de futurologia pode também se servir de qualquer outro app que faça de todas as pessoas agentes criativos.

Acho especialmente fofa a ideia de que todos nós sejamos criativos. A cultura “maker” (fazedor) é uma das coisas mais ridículas que já vi. A civilização ocidental não acabará com uma explosão, nem com um gemido, mas sim com uma síndrome aguda de ridículo.

Vejo em breve palestrantes em escolas ensinando que a dificuldade no mercado das escolas particulares não advém de dados estruturais como o fato de que crianças se tornaram um péssimo investimento, um passivo no projeto de vida dos adultos e das adultas. Duram tempo demais, custam muito caro, apresentam retorno duvidoso em termos de afeto ou ganhos materiais futuros, enfim, se estivéssemos falando do fator risco no crédito, a conclusão seria que os bancos cobrariam juros muito altos num cenário reprodutivo como este.

As dificuldades desse mercado viriam, para os palestrantes sabidos, da resistência a uma pedagogia revolucionária TikTok.

Vejo as escolas alegres dando workshops de como ensinar as crianças com o looping do TikTok. Quinze segundos para cada conteúdo. Professores de 30 anos que não se adaptarem a nova ferramenta democrática criativa serão substituídos por professorxs mais proativxs de 15 anos. Afinal, inovação é a palavra chave do mundo “hub”.

Os pais e mães, sempre sem saber o que fazer, serão os primeiros a acreditar que o uso do aplicativo será uma forma de educar os filhos de forma moderna, progressista e orgânica. Afinal, a natureza é, em si, um looping de vida e de energia positiva.

Psicólogos sem preconceitos correrão a esclarecer que o estranhamento com o uso do TikTok para explicar o que significa o conceito de cidadania na luta pela clareza moral na formação dos mais jovens se dá apenas pelo fato de que, segundo a teoria da interseccionalidade (olhe no Google se você ainda não sabe o que seja essa teoria e aí você entenderá melhor a panaceia do debate público americano), homens brancos e heterossexuais tendem a ter mais dificuldades com ferramentas democráticas no plano cognitivo.

Psicólogos com preconceitos contra argumentarão que o looping típico do app TikTok causaria um vício cognitivo nos usuários com possibilidade de danos inclusive ansiogênicos. Psicólogos sem preconceitos não levariam em conta esse contra-argumento porque, movidos pela clareza moral, típica dos santos políticos, saberiam, com segurança, que a adição correta a loopings cognitivos pode ser um ativo na luta contra a opressão.

Os pastores já se adiantaram a todos e Jesus já é um tiktoker. Passagens bíblicas serão relidas em 15 segundos, em loopings dedicados a mensagens sobre pecados e outros quebrantos.

Já os pastores evangélicos bolsonaristas tiktokarão com narrativas de 15 segundos mostrando como a imprensa e a universidade são antros de demônios a serem cancelados pelo aplicativo em questão.

E mais, se a espiritualidade é, antes de tudo, apenas um estilo de vida, porque não talhar um tipo de ioga “designed” especialmente para posturas em 15 segundos no TikTok?

E a política? Ah, a política. As eleições serão decididas por quem viciar mais eleitores criativos no looping infinito do gozo em série a cada 15 segundos. E, claro, a esquerda identitária exigirá que todos os vídeos de 15 segundos tenham apenas autorxs e personagens que sejam agentes de lugar de fala dessas identidades oprimidas.

E os intelectuais? Esses provarão por A mais B que o looping infinito do TikTok será ou bem uma ferramenta essencial na luta pela democracia e contra a desigualdade social, ou bem um modo seguro de se atingir a felicidade. Logo, tiktokers de grande sucesso darão entrevistas a encantados de todos os tipos.

Os pastores já se adiantaram a todos e Jesus já é um tiktoker


Luiz Felipe Pondé - escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.


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